Esta semana, os incêndios continuaram a calar as serras. Calar, porque o vento não pára para falar com árvores sem folhas. Nem as folhas se desprendem em danças com o fogo. O Outono parece deixar de ser Outono. Agora em cinzas, depois do fumo que nos mudou a cor do céu até aqui. A Natureza ocupa-se em levar as cinzas para dentro da terra ou para dentro do mar. Mas um fogo até pode ser bonito:
se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes
são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão
E pedes aos anjos para murmurarem essa última canção. Depois, talvez alguém a enviar-nos a chuva. Ou os teus antepassados a pedirem a Deus essa chuva. Ou eu, com a força toda do mundo, sem acreditar em Deus, acreditando em mim. Ou tu. Porque seja o que for que venha, podes pensar que o tempo resiste sempre ao vento e tu, enquanto estiveres acordado, sabes que nunca haverá uma última canção. Look up, call to the sky/ Oh, look up and don't ask why, oh/ Just take an angel by the wings/ Beg her now for anything/ Beg her now for one more day/ Take an angel by the wings/ Time to tell her everything/ Ask her for the strength to stay./ You can do anything.Então pelas árvores que ainda temos, pelas folhas que esperam o vento passar, e, enquanto a chuva cair, devemos continuar a dançar.
No outro fim-de-semana, terminei a sétima temporada do Game of Thrones. Isto, a propósito de dragões imaginários e de domingos frios, mas falando de tempestades penso que o mundo pode descansar pois o Irma já passou. É tudo passageiro: Byron disse sobre as tempestades que (se repararmos bem) elas, como as emoções, começam em bonança «Tranquilos o céu e a terra - mas não adormecidos,/ Porém sem ânimo, como nós quando apaixonados,/ E tão silenciosos como se acordássemos de profundos pensamentos» e a mudança vem depois.
Ouço Dead Combo as guitarras tocam e há uma voz, embalando, para começar em jeito de lullaby, a abraçar a gente. E eu deixada em terra firme com o mar em frente vejo a passagem dos corpos náufragos. E ao escrever este texto-poema
percebo que todos os meus textos são poemas e não há parágrafos nos meus textos-canção. Ouço esta música como uma nova condição, não escrevo, sinto, porque as pinturas na água são como corridas de corpos loucos como ficção de cinema. Da janela de casa vai o ruído do mundo a passar, e, na interpretação, há sempre uma pena de ave a cair na minha mão. E ao escrever este texto-poema percebo que todos os meus textos são poemas e não há senão a verdade nos meus textos-canção.
As gentes entre milhares de passos e abraços. Mas meu presente lúcido é uma paragem. Onde espero, espero, e não vem ninguém. Escolhi esperar por ti que és uma miragem.
Agora tornou-se real a minha condição. A luz da tarde é cinzento-baça. Estou a sós comigo. Neste novo lugar. Ãmanhã é um outro dia, outra vez. Não pensaria no que perguntar. À noite. À vida. Neste momento.
Mas afinal a que horas o sol se levanta?
Para que parte do mundo, olhar?
Trocadilhos. Rabiscos. Desenhos.
Reticências. Um ponto final.
E, no entanto, quatro pontos. Se calhar, a minha bússula.
Suddenly, I see. Pode existir cor em tudo. Nas sombras, no branco da parede, no azul minguante do dia. Na tua pele a brilhar junto da minha. Sempre. Sempre. Como eu vejo. Lembro-me de me dizerem que podemos repetir as palavras nos poemas, dando-lhes mais cor. Ai se fosse o Mário Cesariny a citar-me agora. Que sentido para estas palavras. A mesma cor mas muito mais forte. Voltar atrás para refazer. Pois sempre tão fácil a repetição. Como a música electrónica. Tão fácil, parece ser, quando feita por génios.
A primeira metamorfose. Duas borboletas fora do casulo que, com nossas asinhas novas, pousaramos longe. Agora lembrei-me de Vinícius de Moraes porque adoro o poema infantil "As Borboletas". E agora da Adriana a cantá-lo. Nesta maneira querida de entoar as palavras que os brasileiros têm para aquecer um coração. Podiamos ter recomeçado assim a voar baixinho, perto do mesmo candeeiro, mas eu e tu tinhamos de fazer diferente. Da próxima vez, renascerei numa canção que apanhes e faças tua, na playlist, na coluna de som azul, e na alma.
Ainda sobre o tempo, o sentido de tudo Eu disse-te que seria uma oração Sem deuses, porque todos são deuses Se soubessemos as respostas rápidas Do mundo, não precisariamos de céus Se soubessemos, não seriamos Como um alarme ou uma canção, E entre nós, correriam estrelas, Correriam luas, e o vento devagar Mas eu não sei por onde andar Porque eu não sei para onde olhar Só onde tu estiveres, haverá magia Ainda sobre o tempo, e as horas Foi um movimento que eu não queria Fugir dali, e andar por qualquer lado Mas agora, como viver deste longe daqui Há um postigo para partilhar loucuras Lembrar a bravura e perseverança Com saudade da criança que vive em ti. Cherbourg, 26 de novembro de 2016
Sob a tua pena, tudo marfim e sangue e pele e cabelos muito lavados com o cheiro doce das crianças.
Agarrarei para sempre o teu génio-milagre. Eu e tantas outras mãos, tantos outros braços. Expectantes, em tronos de troncos, loucos, dedo a dedo imaginando que possas fundir-te a um Sol qualquer. Indestrutível num esplendor conjunto de fogo, de folhas, de risos, de iluminações negras e brancas. E possas mover depois a Terra de uma outra maneira. Tu já és certas cores do céu. Certos teoremas muito exactos onde se desenham os limites das nuvens. Certos fotões. Certos balões que sobem e deixamos de ver, no lugar de onde te debruçarias. Ou qualquer outra coisa absolutamente diferente. Absolutamente por inventar. E então estarás por ali. Sentado do tamanho de um número mais pequeno, sobrelevado, exponencialmente na minha recorrência. Alucinações, falangetas e falanginhas de reacção, inspiração. De cima do teu palco encerrado, de dentro do teu silêncio, tanto espectáculo, tanto ruído, tanto poema. Uma incompreensão sentida nos poros, exactamente como se sente o amor, mas ainda com mais gramática. Uma linguagem de séptimos sentidos. Tu és a púrpura. Uma membrana de seda, de asa. Uma rosa no fundo da cabeça. Abelha-rainha ou uma coisa muito mais masculina. Tu és muitas muitas janelas. Presentes que se carregam na mala. Memórias, com palavras de impossível tradução, letras, a tua, sem pontos finais; em perfeita simetria: HH
A baby boy name used mostly in the Scottish language and of Germanic origin. That's news to me. You have to keep digging so the language stays alive and rich... «Look: I was wondering in which part do you die, to have a flower and cross with it through light and ardent voices and naked crimes. There is a silence in the islands to unsettle the dust, and your face turns slowly filled with fever to the side of a terrible and cold song.»
| Pt |
Um nome de bebé especialmente usado na língua escocesa, de origem germânica. Isso é novidade para mim. Temos que procurar continuamente para que a língua permaneca viva e rica...
"Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela
atravessar vozes leves e ardentes e crimes
sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para
a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio
De outras vezes Poderia - com alguma hesitação Supor o que os outros suporiam. Porque todos nós, Em outras tantas vezes, gostaríamos De achar que a vida vem à frente. De achar que as agendas da vida Ditam fora do presente. E de achar que existe um tempo Reservado à vontade que se sente. Então, acontece, quase sempre, Pensarmos que o melhor está por vir Para nós e toda toda a gente. Pensarmos que há um tempo por cumprir E que um raio de sol mais directo Um raio de sol que vem, por certo, Fechar-nos ainda mais o olhar É uma espécie de sinal que vai chegar. Mas é nesta cegueira que vivemos Porque este tempo é concreto E continuamos a aguardar Pelo que agora temos e nem vemos, Nestas tantas tantas vezes, Que escolhemos adiar. É todo este tempo que perdemos, E nisto, tudo prestes a mudar.
Inquieta-me o vento a soprar. São formas de sorrir diferentes: eu com medo e tu despido. Inquieta-me o tempo por vir. Mas não sei diminuir paisagens só para simplificar a história. Gosto de personagens e do reconhecimento das mesmas ordens e padrões, dos tecidos vistos por dentro. Tenho tempo para não pensar na inteligência desenhada do mar, ou na sorte da areia, contradições de cartas que marcam os livros. E isto era como se jogassemos. E era se a vida em dados e fados connosco dentro dela. Posso somente neste momento beijar-te o coração e seguir, como uma paixão estendida e mais roupa deixada a secar. Há dias em que deveríamos ser crianças cheias de sol, incríveis vestidas de cores-aguarela, com tamanhos impossíveis. Tenho letras para palavras, palavras para canções ideais. Instrumentos na minha janela para tocar, adiar, arriscar. E isto era se pudessemos brincar. Como se a vida toda em risos connosco dentro dela. Lisboa, 12 de outubro de 2014
Close your eyes. Today, a day of Spaces Around in Casa Fernando Pessoa. Some things call for us. Then, we sat down and we are really at home. Feeling that we could take to dinner that people whose faces meet us for the first time. I do not know why this is like that. To feel at home in the house of others. And to see strangers as if they were friends. The reason must be poetry and the same interests, that invisible line connecting people. To think twice is in other cases. When we decided on a path, we fail to recognize each other. Abandon to move on. Sometimes it seems that if we simply do not know where to go. Close your eyes. Do not ask Alice's cat. Close your eyes and see with your heart, without compromising anyone.
| Pt |
Fechar os olhos. Hoje foi dia de Espaços em Volta na Casa Fernando Pessoa. Certas coisas chamam por nós. Depois, sentamo-nos e estamos realmente em casa. Sensação que podiamos levar a jantar aquelas pessoas cujos rostos se cruzam connosco pela primeira vez. Não sei por que razão é assim. Sentirmo-nos em casa na casa dos outros. E ver estranhos como se fossem amigos. Há-de ser a poesia, e os mesmos interesses aquela linha invisível que interliga as pessoas. Pensar duas vezes é nos outros casos. Quando nos decidimos por um caminho, deixamos de reconhecer o outro. Abandonando para seguir em frente. Às vezes parece que simplesmente se sabe por onde não ir. Fechar os olhos. Não perguntar ao gato da Alice. Fechar os olhos e ver com o coração, sem comprometer ninguém.
Esta publicação só faz sentido em língua portuguesa, onde, por agora, a poeta se lê, seja em Portugal seja do outro lado do oceano, onde cavalga o Jóquei, onde se esgota nas livrarias. E diz o artigo que «caiu como um meteorito. Algo que escapou aos radares, não previsto pela meteorologia, feito de uma matéria desconhecida, vindo de um lugar não-identificável, ainda a arder.» Eu não concordo, para mim previa-se que fosse assim. Eu disse ainda em Novembro como ia ser assim. Este blogue é dedicado à música, porém, a poesia também ondula as palavras. Música e poema são de uma génese prima, é o mesmo sangue que arde, quando nos toca. E como toca. Era Novembro quando apresentei a Matilde aqui, e no final do ano partilhei um video-poemadela que gostava que fosse de toda a gente, e em Abril foi outro. Partilhar é isto. Explicar como aquilo que somos, por vezes, resulta muito bem em outros. Ler a Matilde dá-me vontade de pegar em caderninhos outra vez, distribuí-los nas malas, nas mochilas e nos bolsos. Recolher ideias e depois juntá-las em poema. Isto não é sonhar, é fazer acontecer. Posso fazer fotografias e fazer poemas porque é a fazer coisas que nos entendemos. Ainda posso escolher uma música se, como ela, os decidir ler em voz alta. Esta publicação só faz sentido em língua portuguesa, e o título é aquela música dela, que é também nossa sempre que ela se lê.
Good thing to write in English is that the effort to write poetic prose fades. The reason is I do not have the full capacity to evaluate the quality of my writing when I write in another language. On the other hand, I have much more to say in Portuguese, and always in the broadest and most creative sense. The composition is more pure, the notes are released more naturally. Energy is lost in translation. I need literature in English, reading great novels to improve my performance. In the meantime, I've been listening to the new poem of Matilde Campilho and felt exactly this feeling. That is good. Too good to miss. And I miss writing in my language. It's my way of freedom.
Ontem fui a Monserrate. Primeiro, parei no centro de Sintra para tirar fotografias. Depois, atravessei as estradas até lá acima. Aquelas estradas estreitas de alcatrão, cheias de curvas para nos pormos a pensar se virá alguém de frente. Essas mesmas, cheias de «ésses». Ao mesmo tempo, muito largas de tudo: magia, beleza, e, principalmente, da atenção do meu sorriso. Fui cedo. No balanço apressado do carro porque eu gosto de não chegar atrasada. E não chego. Eu até gosto de esperar nessas alturas. Ocupar-me a pensar em ti. Quando já vou a passo tenho a atenção inteira para desembrulhar por ti. Foi isso que aconteceu porque na entrada não me deixaram descer com o carro. Fui a pé até ao Monte da Lua. A seguir às escadinhas vi, naquela hora, o Palácio em frente. Tão no mesmo lugar como da última vez. Apenas com uma luz ligeiramente diferente. Ainda com mais romantismo. Numa investida de frio de final de ano, ou apenas de final de dia. Depois tive de continuar para o lado. Curioso, o monte lá em baixo. Num lugar de vale, um pouco mais para a direita.
Parque de Monserrate (c/Panasonic DMC-G5)
Ontem fui a Monserrate e não te vi. Mas estavas em todo o lado. Na sombra. Nas folhas. No restolhar conjunto. Ah! Eu agora parecia ouvir dizer dos Ornatos. Não foi minha intenção. Não vou apagar nem calar-me por fazermos caminhos parecidos. Afinal, a palavra é de toda a gente. E agora, por falar nisso, como eu queria ter-te ouvido ontem. Nas pedras ao lado das que eu calquei. Embora eu nunca me sinta sozinha. Não sei se te diga que ontem não era Verão. Nunca é Inverno depois de te imaginar comigo, nem mesmo em Dezembro. Na verdade, ainda é Outono e ainda há folhas por cair. Can you tell me the difference between Autumn and Fall? Se calhar não é importante. Como tantas tantas outras coisas que não têm importância nenhuma. Não vale a pena andarmos às cabeçadas por causa da distância. Falta tão pouco para te ver pelos olhos. Para te tocar. Para te lembrar de tudo. Outra vez tudo. Ontem fui a Monserrate. O parque tão grande, tão cheio de ti. A Natureza abraçava-te. Com aqueles ramos todos. Corredores que me deixavam passar. Junto às figuras de tronco que pareciam explodir. Rebentar de tão bonitas. Deu para ver o barulho do tanto que pensei em ti. De achar tudo perfeito. Podia ser plasticina verde pendendo dos galhos. Não seria menos verdade. Hoje os teus postais a chegarem. Eu a ler as tuas saudades de mim. E os passarinhos do parque ontem já sabiam de tudo. Tenho a certeza.