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domingo, 29 de março de 2015

Love More

There can be no doubt. We want to say there was no past. We want to say we do not choose. But no one knows. Losing heads in thoughts. Feeling. The rain, the violence of the sound of rain. Life is like this song. First you whisper. Seems a far cry. A cry.  You said you are playing hard and I felt like embracing you but I am far. Then the day was night. Miss distilled blood. We don't stop loving like this.


| Pt |

Não se pode duvidar. Queremos dizer que se passado não houvesse. Queremos dizer que não escolhemos. Mas ninguém sabe. E as cabeças perdem-se em pensamentos. Sentem. A chuva, a violência do barulho da chuva. A vida é uma canção como esta. Primeiro sussurras. Parece um choro distante. Um grito. Disseste que te fazias de forte e só me apeteceu abraçar-te mas estou longe. Depois o dia era noite. Saudades destiladas de sangue. Não se deixa de amar assim.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Perth

Este blogue é também para ir colando poemas. Ainda que eu não venha muitas vezes carregada com as linhas comprometidas para essa função. Uma coisa é aventurar-me pela web a agarrar aquela música que quero. Outra, é ir dentro de mim onde só eu moro e puxar esses versos muito acertados, sentir-me bem com a música que irradiam e a seguir, partilhar a poesia. Isso acontecer é mais difícil, claro que é mais difícil. Puxo de um lado, começo a ter as primeiras palavras para dizer e soltam-se-me outras dentro da pele. Perco-as. E primeiro que tornem a sair... Antecipam-se outras novas, claro. Fazendo-me esquecer as primeiras, as mais tímidas. Sabe-se lá por mais quanto tempo entre as artérias, ou abraçadas aos ossos para não saírem cá de dentro. Pois não há-de ser muito diferente a corrida aos óvulos: tanto falhanço junto, meu Deus. Já pensei tentar ir buscar as palavras que eu preciso aos centros comerciais ou às lojas tradicionais da minha rua. Ando a ver se as encontro. Mas não as vejo nas prateleiras. Há os códigos de barras. E eu já me cansei de números e letras no mesmo binómio. Então dirijo-me ao balcão. Mas há coisas que ninguém vende. E se peço por palavras, por poemas, vêm dar-me outras sugestões. Obrigada a todos, mas não são os meus poemas nos livros dos outros. Por isso, os meus ainda são, às vezes, as minhas fotografias. E eu gosto disso. Tantas cores para inventarmos palavras. Ou se tiver sorte. Muita sorte, como tantas vezes tenho, eu ponho as fotografias e as minhas palavras racham-me os poros para as espreitarem. Vou apanhando algumas e quase escrevo poemas com elas. Às vezes até as letras soltam os minúsculos dedos umas das outras, quebrando-se o elo. Queria escrever Poesia e elas ditaram Perth. (Nem merece a etiqueta.) Das seis letras comandei só duas e não sei aonde foi parar a sexta, mas de repente acho que cheguei à Austrália.

domingo, 6 de outubro de 2013

D a u g h t e r

Raízes: 2010, Londres. Folhagens: 2013, Mundo. 

Elena Tonra trabalhava a solo, ou antes, criava a sua música. Filha de mãe italiana e pai irlandês, aos treze anos recebeu um álbum de Jeff Buckley oferecido pelo pai, sentindo esse o momento em que percebeu o que era a música. Desde cedo dedicada à escrita de poemas por se sentir solitária e inadaptada, mais tarde, é por meio da guitarra do irmão mais velho que decide transformá-las em canções, de cariz melancólico, iniciando o seu caminho como cantautora. Faltavam Igor e Remi, mas a banda acabou por se cruzar no Institute of Contemporary Music Performance e o trio conta agora com três anos de percurso. Quando conheceu Igor Haefeli na escola de música, e este se dispôs a tocar guitarra com ela nas actuações ao vivo, percebeu que os estilos se conjugavam e decidiu expandir a sua música. Nessa altura, o que começou por ser uma favor de um colega, rapidamente se tornou numa banda, mais tarde com a entrada do baterista Remi Aguilella. Por ter tido uma boa infância e, apesar da feminilidade intrínseca ao nome, devido a essa reminiscência, surgiu-lhe o nome Daughter, nome que é tido como confortável para os três elementos e já distante do projecto de Elena a solo. 

Depois de dois EP (His Young Heart e The Wild Youthlançados em 2011, sendo Home retirado do segundo [mais electrónico e atmosférico que o anterior] percebe-se que a linha mestra que conduz o grupo se mantém, e esta coerência deriva sobretudo - à semelhança do que acontece com inúmeras outras bandas como Coldplay, Bon Iver, The XX, Cat Power -, do peso que a voz da vocalista imprime na balança trimétrica da banda.




Os Daughter vão actuar em Lisboa, no final de Novembro por ocasião do Vodafone Mexefest para divulgação de If You Leave, álbum de estreia no formato de longa duração. O título relaciona-se com amor e morte, temas presentes em todas as músicas do disco. Trata-se de evocar o medo que nunca se vê, o sentir da própria solidão e a sensação de abandono. Precisamente por ter tido uma infância feliz, aliás retratada nas capas dos EP, sente que necessita continuamente de protecção. Pode ser uma antecipação pessoal de quem escolhe reflectir sobre o depois da vida. Elena considera que quando morrer vai estar sozinha e define como aterrador um estado em que não encontra ninguém. A sensação é a mesma quando antevê a possibilidade de as pessoas lhe morrerem. Gosta de pensar sobre isso e de transportar esse interesse para a música. Esta linha e esta ideia emergem do tema Shallows.



Genericamente, as letras são autobiográficas. Relacionam-se com pensamentos e disposições pessoais. Elena desafia as emoções através da escrita. Serve-se da própria tristeza interior, e é esse seu lado escuro que considera a fonte verdadeiramente inspiradora que transforma em música. O tema Smother representa esse estado de espírito que denota culpa, talvez seja uma vontade de voltar atrás e fazer de modo diferente, ou, no limite não chegar a nascer: «I sometimes wish I'd stayed inside / my mother / never to come out». 



Assumindo com timidez as actuações em palco, é claramente com a voz, que Elena toma de assalto o público e o envolve, mantendo os olhos quase tapados pela franja e normalmente voltados para o chão. Reaproveitado do EP The Wild Youth, o tema Youth é uma amostra-testemunho que justifica a ascensão da banda.


Neste contexto, a canção Amsterdam é a excepção do álbum. O tema é uma espécie de comentário em relação ao comportamento humano. Foi escrita em Janeiro de 2012 numa viagem da banda a essa cidade. Trata-se da observação externa relativamente aos escapes mundanos: os vícios; as fugas; e todas essas maneiras de de alienação a que também se chama vida: «Good night with killing / Our brain cells / Is this called living / Or something else». 


Mas nem só de originais se ocupa esta banda, já reinterpretaram alguns temas de Bon Iver, Hot Chip, e também os Daft Punk tiveram a mesma sorte em Get Lucky. Através das entrevistas, ocasiões essas de maior improviso, percebemos que, embora a manifesta fragilidade e a natureza das emoções envolvidas na música da banda, o lado negro não se exterioriza. À transparência do momento revelam o melhor da sua juventude e da sua alegria. São graciosos, afáveis, e, como se pode comprovar na seguinte introdução desta versão acústica de Medicine, parecem bastante realizados com o que têm andado a fazer. Esta banda está a conquistar o mundo: é uma «filha» com três braços e todos os dias surgem novos pais para a proteger.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Smells Like Fresh Tangerines

Se alguém decide fazer uma “versão” escrita da obra de um escritor isso é plágio ou então, apanhando levemente uma ideia, inventa-se uma nova estória para contar e passam a ser obras distintas. Fazer a versão de um texto cuidando de respeitar os seus direitos autorais cabe apenas às editoras onde compete transformá-lo por fora: mudar-lhe o tipo de letra, aumentar ou reduzi-la, alinhar o texto, alterar o espaçamento entre linhas, todavia, no final, vamos ler exactamente a mesma coisa. Por outro lado, vamos encontrar cenários díspares fruto da leitura, independentemente da estética impressa pelas palavras. Cada estória pode ser uma projecção diferente dependendo da compreensão de quem a lê e de que maneira a sente. Aliás, cada um coloca a sua consciência no lugar dos olhos. Por isso, reinterpretar uma estória para as massas passa por metamorfoseá-la sob a forma de outra arte, pode ser (por exemplo) a sua reprodução em filme. Nesse caso, os cenários são partilhados mas as coisas são distintas porque esquecendo a palavra escrita somos formatados para uma só interpretação – a filmada. E, em geral, baseamo-nos muito no que vemos e a margem para a invenção não é grande. Nem na arquitectura é possível partir do vazio para criar, ficamos condicionados pelas limitações de construção da engenharia e do tempo e, se olharmos da lua, (apetece dizer que) a vida parece estar constantemente balizada pela realidade. Projectar e conceber à risca os espaços sonhados seria como habitar as Cidades Invisíveis do Calvino. Só com os pés assentes no campo da música é possível abanar um limoeiro carregadinho de limões e dele colher tangerinas: na verdade, uma cover consegue muitas vezes, dependendo dos gostos, superar a versão original de uma canção.  


Além desta magnífica interpretação da Tori Amos (antagónica à abordagem de Lana Del Rey para o Heart Shaped Box), eu gosto especialmente de ouvir a versão de Stormbringer do Beck (relativamente à original de John Martyn) e a versão de Heartbeats (The Knife) interpretada pelo sueco José González:



Uma cover é uma indumentária nova à maneira do espírito que a veste. Na passerelle das canções, sempre que a voz muda (e com ela o estilo, os instrumentos, a própria cadência da fonte) são despertados necessariamente novos caminhos que podemos escolher seguir. Uma música pode tornar-se sensualíssima como escolheria (de entre milhares de versões de G. Gershwin) o Summertime vestido pelo trip-hop dos Morcheeba:


Existem inúmeros exemplos de covers que conquistaram lugares do pódio, destronando as versões originais (aqui: Top 10 Cover Songs - watchmojo.com). Nos tempos que correm, estão sempre a surgir novos exemplos que, mesmo não correspondendo a uma predilecção massificada, deleitam os fãs como a versão dos Linkin Park do Rolling In The Deep (Adele), ainda a interpretação de Landslide (Fleetwood Mac) pelo Antony Hegarty (depois da inesquecível versão dos Smashing Pumpkins), e a crítica tem sido generosa com outros, cujas carreiras estão a começar, como é o caso da Birdy depois do seu Skinny Love (Bon Iver) ou o fôlego novo do Wicked Game (Chris Isaak) pela voz da Beck Wood (Coves). Há ainda quem tenha a proeza de tornar quase irreconhecível o original como os Punch Brothers fizeram neste amagicado Kid A (Radiohead)mas muitas outras covers primam pela genialidade, como Somebody That I Used to Know (Gotye) dos Walk Off The Earth que, apesar da criatividade, não chega a todos, e o mais engraçado é que ainda se conseguiu fazer mais desta música numa espécie de remistura de várias interpretações (que até inclui a anterior): e esta é a - mais ou menos anónima - cover das covers:



No meio de tanto talento, continuam a cair tangerinas maduras do limoeiro mas já não tenho espaço para todas as etiquetas.