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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

The Aeroplane Flies High (Turns Left, Looks Right)

Concertos. Tenho muito boas referências em memória. Lugares ao vivo onde recarreguei baterias. Em geral, a música pode ser um meio de não percebermos o tempo. Havia o Billy no palco e de repente os anos que já passaram. Mas um mês não será uma insuportável distância. Psicologicamente, há-de ajudar pensar que o dia se aproxima. Entre ti e eu, apenas uma ponte invísivel sobre a terra e o mar a separar uma grande diferença de temperaturas. Saudades de te ver olhar o meu sorriso e sentir-te igual a mim, justamente nas mesmas dimensões de tudo. Suponho que esta vontade de anular as distâncias já ditou o nosso Carnaval. The aeroplane flies high.


"I really don't wanna look stupid when I'm sleeping
I never really liked sunny days
The black wings just reach out to me over a distance...
And I can feel the wind from the wings
I see the clouds, I feel the ocean with my feet, and I'm home again
It requires an ability to judge distance
The airplane flies high...turns left, looks right"

Love is a sentimental heart
Life is a sentimental way
Spy the fragile heart so cursed
As he walks across this earth

I'm disconnected by your smile
Disconnect a million miles
And what you promised me
I hope will set you free
I'm disconnected by your smile

"If I knew where I was going I would already be there
I wish I had more time
Judicious, beautiful, uh, demented, whatever
I've always been afraid to die, but I think I'm more afraid to live"

And all I gave to you is lost
And all you took from me is lost
Black wings carry me so high
Up to meet you in the sky

I'm disconnected by your smile
Disconnect a million miles
And what you promised me
I hope will set you free
I'm disconnected by your smile

Wishing you were real to me
Wishing I could make believe
I'll take my secrets to the grave
Safely held beneath the waves
Always knew I couldn't save
Always knew I couldn't save you

domingo, 20 de abril de 2014

Disarm

A new idea can be either silly, or good, or both. It can be done because it runs in my head and I find it exciting to follow. Look at the sun and think about the endless list of ideas that never happened. What about the lack of substance that slightly appears on the surface? I don't believe in an unique technique and I don't mind to repeat the word «failure». Sometimes, doing the opposite without critical logic might be the best way to succed. The number one rule is never to mortgage my own life. Then, disarm her (life) with a smile or two. Not dreaming is the largest excuse. Instead, I feel the best part of me is all over in me and what I choose it's my choice

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Smells Like Fresh Tangerines

Se alguém decide fazer uma “versão” escrita da obra de um escritor isso é plágio ou então, apanhando levemente uma ideia, inventa-se uma nova estória para contar e passam a ser obras distintas. Fazer a versão de um texto cuidando de respeitar os seus direitos autorais cabe apenas às editoras onde compete transformá-lo por fora: mudar-lhe o tipo de letra, aumentar ou reduzi-la, alinhar o texto, alterar o espaçamento entre linhas, todavia, no final, vamos ler exactamente a mesma coisa. Por outro lado, vamos encontrar cenários díspares fruto da leitura, independentemente da estética impressa pelas palavras. Cada estória pode ser uma projecção diferente dependendo da compreensão de quem a lê e de que maneira a sente. Aliás, cada um coloca a sua consciência no lugar dos olhos. Por isso, reinterpretar uma estória para as massas passa por metamorfoseá-la sob a forma de outra arte, pode ser (por exemplo) a sua reprodução em filme. Nesse caso, os cenários são partilhados mas as coisas são distintas porque esquecendo a palavra escrita somos formatados para uma só interpretação – a filmada. E, em geral, baseamo-nos muito no que vemos e a margem para a invenção não é grande. Nem na arquitectura é possível partir do vazio para criar, ficamos condicionados pelas limitações de construção da engenharia e do tempo e, se olharmos da lua, (apetece dizer que) a vida parece estar constantemente balizada pela realidade. Projectar e conceber à risca os espaços sonhados seria como habitar as Cidades Invisíveis do Calvino. Só com os pés assentes no campo da música é possível abanar um limoeiro carregadinho de limões e dele colher tangerinas: na verdade, uma cover consegue muitas vezes, dependendo dos gostos, superar a versão original de uma canção.  


Além desta magnífica interpretação da Tori Amos (antagónica à abordagem de Lana Del Rey para o Heart Shaped Box), eu gosto especialmente de ouvir a versão de Stormbringer do Beck (relativamente à original de John Martyn) e a versão de Heartbeats (The Knife) interpretada pelo sueco José González:



Uma cover é uma indumentária nova à maneira do espírito que a veste. Na passerelle das canções, sempre que a voz muda (e com ela o estilo, os instrumentos, a própria cadência da fonte) são despertados necessariamente novos caminhos que podemos escolher seguir. Uma música pode tornar-se sensualíssima como escolheria (de entre milhares de versões de G. Gershwin) o Summertime vestido pelo trip-hop dos Morcheeba:


Existem inúmeros exemplos de covers que conquistaram lugares do pódio, destronando as versões originais (aqui: Top 10 Cover Songs - watchmojo.com). Nos tempos que correm, estão sempre a surgir novos exemplos que, mesmo não correspondendo a uma predilecção massificada, deleitam os fãs como a versão dos Linkin Park do Rolling In The Deep (Adele), ainda a interpretação de Landslide (Fleetwood Mac) pelo Antony Hegarty (depois da inesquecível versão dos Smashing Pumpkins), e a crítica tem sido generosa com outros, cujas carreiras estão a começar, como é o caso da Birdy depois do seu Skinny Love (Bon Iver) ou o fôlego novo do Wicked Game (Chris Isaak) pela voz da Beck Wood (Coves). Há ainda quem tenha a proeza de tornar quase irreconhecível o original como os Punch Brothers fizeram neste amagicado Kid A (Radiohead)mas muitas outras covers primam pela genialidade, como Somebody That I Used to Know (Gotye) dos Walk Off The Earth que, apesar da criatividade, não chega a todos, e o mais engraçado é que ainda se conseguiu fazer mais desta música numa espécie de remistura de várias interpretações (que até inclui a anterior): e esta é a - mais ou menos anónima - cover das covers:



No meio de tanto talento, continuam a cair tangerinas maduras do limoeiro mas já não tenho espaço para todas as etiquetas. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

The Airplane Flies High (Turns Left, Looks Right)

Quando reparamos a sério no comportamento humano, podemos afirmar que não é a imagem física nem a simpatia e muito menos a roupa que cativa os outros. As mãos podem despertar a atenção. O olhar conta muito desde que nos envolva. Mas a beleza que me fascina não se vê porque aparece sobretudo de dentro. E o que cada um viveu e experienciou em comum traduz-se na ponte que o liga aos outros. A inteligência potencia mais verdadeiramente as afinidades. Porém, é extremamente importante o sorriso. E o poder que uma expressão facial tem é um mistério. 


Apesar disso, quando é que uma pessoa diz que fica “desconectada” pelo sorriso da outra? Nesta faixa, o Billy fala, canta e grita-o. Sounds right, looks right.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

When You Wish Upon a Star


(numa noite de Dezembro, 
um amigo ofereceu-me duas coisas:
este céu e uma dívida eterna)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Fragmentos de tempo que contam histórias sem tempo nenhum

Foi um Bryan quem me levou ao meu primeiro concerto em 91. A esta distância já não nos cumprimentamos mas, naquela época, tenho a certeza que me viu entre a multidão porque passei grande parte do tempo no lugar privilegiado das cavalitas de um tio que não era meu tio. Agora olho para os bilhetes que fui guardando com o passar dos anos e percebo que mudamos com o tempo quando não reconhecemos o que foram os nossos gostos. E estes bilhetes que guardamos escrevem parte de uma história. Olho para eles e encontro o Abrunhosa mas reparo que não guardei o Bandemónio de bilhetes que me passaram pelas mãos nas tantas terras do norte. Sting lembra-me o aniversário da minha irmã e a relva de Alvalade num dia de muito Sol. Um dia em que uma tarde em minutos se fez noite no trânsito de uma Lisboa frenética que me era estranha. Mas conservei três bilhetes da Maria João e do Mário Laginha, entre o Coliseu e o Rivoli e percebo que me tornara mais interessada pela música e pelas pessoas que se juntavam comigo e que conservo ainda hoje. Outras vezes, a vida é uma sucessão de amigos. E eu sempre disposta a chegar primeiro, gostava muito de me sentar à espera antes dos espectáculos, na escadaria do Coliseu, onde nos procurávamos encontrar. Já não mudava tudo com o passar dos anos. Era também fiel ao piano. E foi outro piano que me levou a Famalicão ver o Michael Nyman, anos mais tarde. Ou o Rodrigo Leão em Tavira numa noite ao ar livre com direito ao ensaio, para rever no festival do Silêncio entre poetas, no São Jorge, nesta Lisboa recente que já é casa. Os Ornatos Violeta e, talvez porque o monstro precise de amigos, os Turbojunkie estiveram comigo no Hard Club há muitos anos e houve os The Gift no Rivoli onde comprei o Vinyl longe de imaginar que os iria rever tantas vezes no queimódromo mas com muito menor atenção. Avanço então com mais bilhetes. Alguns foram rasgados no lugar da data.  Vejo isto e sorrio. Não importa: a música não tem cronologia e os concertos são momentos particulares de auge. Então avanço. Os Violent Femmes levaram-me a visitar a minha amiga de infância que estudava em Coimbra. E foi um qualquer espectáculo esgotado que me levou aos Stomp no Coliseu. O barulho que era música e atenção à riqueza reciclada. Quando achamos que sabemos onde devemos ir as surpresas apanham-nos. Os Cinematic Orchestra e o Nitin Sawhney actuaram no Sá da Bandeira depois de filas que se encaracolavam na baixa portuense. E o metro de Lisboa levou-me aos Smashing Pumpkins concretizar um querer muito forte de ali estar. Mas de regresso ao Porto, foi o Ben Harper que vi novamente encher o palco com os Innocent Criminals. E maiores culpados fizeram-me voltar ao Coliseu: os bilhetes dizem d’Os Cult, Massive Attack, Air, Tricky, Bahaus, Lamb e até o Caetano Veloso antes dos Sigur Rós que aclamei de pé entre um público muito atento em tempos de menor euforia com uns islandeses mais tímidos que passados 8 anos voltei a receber no Campo Pequeno. Desta vez tive a minha mão a agarrar outros cinco dedos que fazem parte da minha vida, num dos melhores dias do meu ano. Fui porque tinha de ir: afinal, voltamos sempre àqueles de quem mais gostamos.

Porquanto estes fragmentos são também memórias, guardá-los-ei. Já perdi muitos pelo caminho. Concertos e bilhetes. E as noites de concerto são magia sob muitas formas. A distância antes. Os minutos que são a espera. A espera que são pessoas. Que aguardam. Aguardam. Aguardam. As pessoas que são partilha. Partilha de ali ir. Ir é passar as entradas. Entradas aclamadas que são o palco a encher. Encher os sentidos. Sentidos atentos que são os instrumentos em movimento. E o movimento é a vibração das coisas. Coisas que são a pouca luz do ar. E o ar é fumo. Fumo que é proibido na sala. E a sala é quente. E quente é dentro do espaço. Espaço que fica apertado. Apertado é um coração. Coração concentrado em tudo é alegria. A alegria que é o público. O público que são as pessoas. As pessoas que por um par de horas são família. E a família são sorrisos entre a dança. A dança que é prazer. O prazer que é sair do lugar. O lugar que é ali. Ali que é um lugar sem tempo por algum tempo. Um tempo que é pouco. Um pouco tempo que apetece mais. E venha mais um concerto. Só mais um. Um, de cada vez, para consumir inteiro mas bem devagarinho e, de preferência, com a tua mão a agarrar a minha.