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domingo, 30 de novembro de 2014

Tornado

"It is truth that liberates, not your effort to be free" 
J. Krishnamurti

Jónsi, this song could have be written to me. Tornado. So let's talk about me. Let's talk about hysteria, sometimes contained inside the silence of things, and speak about the inconceivable value of the language and the future. And what is the future? Let's talk about the dialogue of the petrified trees that don't answer when I hug them. Let's talk about unexpected blood clogging up my pores. And I say that I prefer the compact devastation of stupidly postponed stories and I prefer to leave a dead city then to live in a puppet body. Then we can speak about the synopsis, almost a first chapter, where my real life would be another thing, mixed with the lives of others and being rewritten at the distance of the sea. I admit the trunks silence, although my life being rewritten in that distance, immediately ceasing to be true and stopping being mine. And then I say I want to close all gates, attentive to the air currents that throw me into the abyss. I tell myself too interested in the breath of the night to get drunk in my thoughts. I see the flowers bend to sleep but I decide to stand vertically lucidity in my reality. And I repeat my words because still no others. I see the current spiral disguised as sweet air kissing my cheeks, mouth, and skin. An air that does not join because the madness of the others is a general theater capable of pirouettes, trapeze jumps, and all that implies not remaining in the viewer side. And I am the spectator of my own life postponed. The madness of the others goes away from the bench where I sit dreaming. The madness of the others has little pure essence, and very little poetry, and it has very little music left over for me. Because I live in an abrupt dimension of light, in the delirium of a time coordinate where only this moment is real. You'll learn to know. Everything is an orchestra or its lack of instruments, more or less like the difference between the versions (a and b) forgetting the piano:

a

b

| Pt |

Jónsi, esta canção podia ter sido escrita para mim. Tornado. Então, falemos de mim. Falemos da histeria, às vezes, contida no silêncio das coisas, e falemos do inconcebível valor da linguagem, do futuro. E o que é o futuro? Falemos do diálogo das árvores petrificadas que não respondem quando as abraço. Falemos do despertar inesperado do sangue a entupir-me os poros. E eu digo que prefiro a devastação compacta das histórias estupidamente adiadas e prefiro deixar uma cidade morta a viver num corpo de marioneta. Falemos então da sinopse, quase um primeiro capítulo, onde a minha vida verdadeira passaria a ser uma outra coisa, misturada com a vida dos outros, reescrita à distância do mar. Eu admito os troncos calando-se, mas a minha vida reescrevendo-se de longe logo a deixar de ser verdadeira e a deixar de ser minha. E então eu digo que quero fechar todos os portões, atenta às correntes de ar que me atiram para o abismo. Eu digo-me demasiado interessada no hálito da noite para me embriagar em pensamentos. Eu vejo que as flores se curvam para dormirem mas eu decido ficar na lucidez vertical da minha realidade. E eu repito as minhas palavras na falta das outras. Vejo correntes em espiral disfarçadas de um ar doce que me beija as faces, a boca, a pele. Um ar que não se agrega porque a loucura dos outros é um teatro generalizado capaz de piruetas, saltos de trapézio, e tudo o que implique não permanecer do lado do espectador. E eu sou o espectador da minha própria vida adiada. A loucura dos outros a passar-se longe do banco onde me sento a sonhar. A loucura dos outros na sua essência pouco pura, na sua pouca poesia, sobrando muito pouca música para mim. Porque eu vivo numa dimensão abrupta de luz, no delírio de uma coordenada de tempo onde apenas existe este momento. Irás aprender a conhecer. Tudo é uma orquestra ou a falta dos instrumentos, mais ou menos como a diferença entre as versões (a e b), esquecendo o piano.

sábado, 22 de junho de 2013

H a m m o c k

Em português denominam-se “rede de descanso” e a ideia condiz com a atmosfera repousante dos temas. Não aparecem nos circuitos mais comerciais e, no entanto, são especiais na qualidade e quantidade de experiências e improvisos de estúdio.

Formada pelos guitarristas Marc Byrd e Andrew Thompson, originários de Nashville (conhecida como a “Cidade da Música” no Tennessee), a banda edita o primeiro álbum “Kenotic” em 2005 com composições instrumentais suaves e equilibradas que confluem no género experimental e ambiente, dentro da nova era do shoegazing revelando ainda assim uma identidade própria. Descrevem as suas músicas sob a influência das infindáveis paisagens do sul rural americano. Parecem simples mas são complexas em cada registo denotando mestria na revisão sónica e no uso de sintetizadores. Cada faixa de “Kenotic” parece tratar-se de um único som anguloso que se deixa expandir com pequeníssimas variações de frequência. Apesar de, neste álbum, não existirem grandes diferenças rítmicas com a excepção do tema Wish, o duo revela a capacidade de fazer transparecer em temas maioritariamente instrumentais os seus próprios títulos, como em Blankets of Night 




através de ruídos nocturnos introduzidos em jeito de antecâmara e em Overcast/Sorrow, onde a música flui na mesma vastidão do céu e onde os violinos incluem certa melancolia, como encontramos em William Basinski, Harold Budd ou Brian Eno. Genericamente, as distorções são uma nebulosa uniforme e vasta num ambiente calmante.

Em 2006 lançam “Raising Your Voice… Trying to Stop an Echo”, no mesmo registo do anterior trabalho, contando esporadicamente com a participação da voz de Christine Glass Byrd em combinação etérea e na mesma fluidez da guitarra que parece expandir-se indefinidamente como em I Can Almost See You, tratando-se de um novo hino à beleza. Em The House Where We Grew Up sente-se uma serena alegria intemporal e bem podia encontrar-se uma guitarra acordada dos Smashing Pumpkins desde que fosse apenas um dos elementos constituintes dentro da escultura de som criada pelos Hammock. Em Take a Drink from My Hands, andamos de estrela em estrela pisando um espaço etéreo onde contemplamos uma nova dimensão de relaxamento embora possamos recordar os Boards of Canada na mesma atmosfera espacial. Inovam com as suaves batidas de tambor em Disappear Like the Morning e com o violoncelo de Matt Slocum quebrando ligeiramente a atmosfera nublosa e exaustivamente uniforme do álbum. Um trabalho sublime que merece ser ouvido muitas vezes sem o risco de cansar.

No ano 2007, são convidados pelo duo Jónsi & Alex para se estrearem ao vivo em colaboração com estes aquando da apresentação de “Riceboy Sleeps”. E em 2008, sai “Maybe They Will Sing for Us Tomorrow” onde as comparações são evidentes e é tempo de introspecção. Continuamos a vaguear no espaço numa linha contínua na qual se sente menos o peso das distorções. De faixa em faixa somos capazes de auscultar apenas ligeiríssimas variações de som. Mono no Aware é uma amostra:




Em “Chasing After Shadows... Living with the Ghosts” de 2010, a assinatura é evidente, persiste a intenção de coerência, no entanto, a percussão apresenta-se mais presente nas peças e a guitarra é dedilhada em Breathturn e No Agenda Instrumental. As interjeições encostadas sem palavras aproximam deste duo outras bandas como, é exemplo, os God Is an Astronaut. In the Nothing of the Night revela a recorrência aos violinos mas talvez esta faixa seja demasiado longa e The World We Knew As Children poderia ser o cartão de visita dos Hammock com tudo o que têm de melhor: 




Com “Departure Songs” em 2012, a sonoridade e o horizonte mantêm-se expansivos. Continuamos a ser embalados num ambiente um pouco artificial onde nos permitimos flutuar porque cada nota faz sentido. Podemos associar sempre um misto de sentimentos antagónicos quando estamos perante os Hammock, e, apesar de os próprios títulos normalmente indicarem uma direcção mais sombria, podemos escolher o que sentir, no mesmo tecido fluido do austríaco Christian Fennesz ou do texano Brian McBride (Stars of the Lid) onde um gigante novelo de som se desenrola vagarosamente e flutua no ar, fugindo no horizonte. Em Cold Front a tristeza não nos contamina porque a música é cristalina e credível sendo uma composição igualmente transcendente mas muito menos negra que outros trabalhos instrumentais como o dos Godspeed You! Black Emperor. Em geral, ao longo do duplo álbum, as faixas estão mais contrabalançadas e os temas mais longos ganham harmonia de conjunto. Podemos sentir-nos menos à deriva do que em anteriores trabalhos. 


Aguardemos por “Oblivion Hymns” com lançamento previsto para Outubro, sem verdadeiramente pedir que nos surpreendam. Talvez fosse mais fácil inovar a receita com uma sonoridade mais intrusiva mas esta não é uma banda para se ouvir a correr. Os Hammock são uma rede de som tecida com fio-trama de seda e fio-teia de nuvem, leve mas consistente, onde nos podemos deitar para sonhar.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Da Islândia com Amor

Foi a Björk que me levou à Islândia. Foi através dela que descobri os Sigur Rós, depois as Amiina, os GusGus, os Múm, os Seabear, os projectos a solo do Jónsi, da Sóley, da Emilíana Torrini, entre outros. Acompanho estes talentos há muitos anos e nunca me desiludiram. 

Gosto de revisitar a Emiliana numa das mais felizes faixas que conheço para traduzir e endereçar o “estar-se feliz”, o que ali acontece e convence entre borboletas, sorrisos, dança, e muita alegria, contagiando e inspirando outros (assim):



Mais exemplos do que não deve passar despercebido: a ousadia dos GusGus em Dominique que, apesar de pertencer a um álbum de 1999, bem poderia ser uma versão mais cristalina e adaptada aos tempos modernos do I am what I am da Gloria Gaynor. O absolutamente emotivo Fjarskanistan das Amiina onde os xilofones ditam o compasso da vaga balada de fundo, também a mesma banda em Over and Again numa espécie de brincadeira de meninas onde as vozes se misturam num cenário igualmente etéreo. Ou ainda no mesmo registo, os Múm com o mítico Green Grass of Tunnel:


que descobri na banda sonora do "Screaming Masterpiece", um documentário de 2005 sobre a música popular islandesa, a par da faixa mais arriscada em termos de movimento We have a Map of the Piano que também merece uma nota, transportando-nos para uma janela de comboio onde as paisagens se sucedem e, simultanemante, embalam fazendo-nos fechar os olhos e imaginar. Mais recentemente, os Of Monsters and Men vieram provar que a terra contínua fértil e capaz de produzir do gelo bandas de inquestionável qualidade. 



A música já de si um fenómeno potencialmente enebriante tem pela área da Islândia uma dimensão paralela ainda mais elevada, quase mística. Outro exemplo são certamente as composições impressionistas de Jóhann Jóhannsson. É invariável a aproximação filosófica no entoar dos ritmos islandeses. Na maioria destes projectos pode reconhecer-se com frequência o recurso a um grande número de instrumentos. Existe a combinação da orquestra clássica com a música electrónica e o resultado é uma esplendorosa surpresa minimalista traduzida através de tecido musical. 

São bandas delicadas mas, coloco na linha da frente os Sigur Rós porque inventaram inclusivé um dialecto próprio "Volenska" para exprimir a linguagem dos sentimentos no álbum “()”. A dificuldade é escolher uma só faixa destes senhores porque trago-as todas na algibeira das minhas preferências. A fechar, fica o belíssimo Tornado do Jónsi porque representa explosão, crescimento e revolução humana como só o Amor pode. Se tudo isto não é suficiente para colocar Reykjavík na lista das capitais a não perder, pode também levar-se a ideia de encontrar algumas das mais belas paisagens do planeta. E eu hei-de lá ir um dia pôr as mãos naquela terra fria para desenterrar varinhas de condão.