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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Before Your Very Eyes

Mais um trabalho de Andrew Thomas Huang. Desta feita, agiganta-se a cabeça de Thom Yorke, as mãos, o busto. As dunas surgem liquefeitas dissolvendo o corpo do cantor. Nasce uma multidão de edifícios e candeeiros e viadutos compridos. Mas tudo se desmorona, engolido por um grande buraco escuro, a ponto de nos desejar uma boa-noite. A Vanessa da Mata iria gostar do início desta música. E eu devia ter começado por dizer isto porque a música vem primeiro do que a imagem. Mesmo que milhares de partículas de areia vestidas em florestas virtuais da Missoni e um ralo enorme por baixo, sugando-as. É enorme mas não consigo chegar a ver. Qual é então o propósito dos vídeoclipes? Provocar a distracção deliberada? Enriquecer o discurso sonoro pela sobreposição das correntes artísticas? É talvez como fazer uma tatuagem para elogiar a pele. Eu prefiro vestir uma camisola quente. Apesar da qualidade dos vídeos é primeiro que ouves a música diante dos teus olhos.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

LEGS + LEXUS > LEAD THE WAY

Aconteceu há menos de um mês na New York Fashion Week o evento que veio revolucionar o conceito de manequins sob uma passarela. Tratou-se de um poderosíssimo espectáculo de video mapping 3D, holográfico, desigual, inovador. A referir [antes foi aqui] a participação de Andrew Thomas Huang, director criativo da LEGS, também na génese desta representação. Um evento maquinal de teatro e dança, onde as personagens habitam um palco ficcional e a realidade perde espaço dando lugar às estruturas projectadas virtualmente. A sucessão de narrativas audiovisuais a par da coreografia tornaram este teatro futurista uma já realidade. De destacar, no papel principal, a brilhante interpretação metamorfósica da modelo canadiana Coco Rocha de 25 anos. 

Além da aclamação que se fez ouvir energicamente no final da actuação, ainda o espectáculo ia a meio e já estava patente o entusiasmo do público, através da quantidade de luzes paralelográmicas acesas nos aparelhos, com recurso a vídeo, que registavam o evento. São os sinais dos novos tempos: o primado da tecnologia, a chegada de um futuro aguardado que paradoxalmente não deixa de surpreender. Na nova era da imagem que se move, cabe à luz conduzir os cordelinhos das marionetas. E estas, passam a ser os elementos que à meia-vida sugerem a recriação de criaturas humanóides numa nova experiência de cor e imagem. 

Lexus Design Disrupted (Full Performance) from LEGS MEDIA

A música ficou a cargo da banda HEALTH. Um colectivo originário de Los Angeles dedicado ao rock experimental, alternativo, com um repertório de músicas cujas letras são, segundo os próprios, «intencionalmente vagas». Neste USA BOYS de 2010, a simbiose de ruídos industriais, agonizantes, com vocais melódicos foi a combinação hábil para evocar a história da personagem feminina central, de aparência frágil, que luta para combater as forças das trevas que vivem dentro de si, de todos os outros seres, e, de toda a matéria. Esta escolha musical, aliada à reprodução de grandes ilusões ópticas: hologramas, sombras movediças, explosões luminosas, bem como todo o trabalho coreográfico a cargo de Ryan Heffington proporcionaram uma espécie de materialização da energia cósmica que foi muito bem ilustrada em palco. Eu sei, William, «all the world's a stage, and all the men and women merely players» mas tudo agora parece bem mais à frente no caminho.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Andrew Thomas Huang + Islândia = resultado mais-que-perfeito

Se alguém perdeu o Solipsist de A. T. Huang deve parar para prestar alguma atenção a este realizador e aproveitar para continuar a brincar na areia através da Björk no vídeo oficial de Mutual Core:


Não sabemos bem se estamos debaixo de água. Às vezes parece que sim. Ela confessa misturar areias e placas tectónicas em si mesma, combinar continentes e ainda assistir à erupção que desfaz a estagnação terrestre. A combinação é perfeita: Björk trouxe o amor em “Biophilia” cantando as transformações da estrutura da terra tratando-se de uma metáfora em alusão às relações humanas e, Huang, com a experiência de tentar gravar a dúvida e captar o momento presente, motivado pela perspectiva filosófica do Solipsismo, cria um segundo cenário encantatório que parece derivar dessa mesma corrente. A cantautora semi-enterrada na areia assiste às rochas a ganhar vida. A harmonia pastel do cenário em movimento contrasta com a cabeleira azul de Björk e com o vestido dourado e seus apontamentos de pedra bordada lembrando que ela é o centro de tudo porque tudo parece possível e é possível que ali tudo aconteça. 

Mais recentemente, chegou a vez dos Sigur Rós serem retratados pelas câmaras de Huang:


Com o lançamento de “Kveikur é noite em Brennisteinn: Há redes de fitas inextricáveis e corpos que são arrastados de correntes negras de lava. Pode ser um resgate mas estas criaturas bem podiam ter saído das grutas d’A Descida de Neil Marshall num ambiente constante de falta de luz. A atmosfera é mais densa do que aquela a que nos habituáramos mas nem tudo é negro, há chamas que ardem altas e cordas douradas pelo fogo que se entrevêem a amarelo-limão. As fitas rompem-se ao som do tradicional arco nas cordas da guitarra de Jónsi. E irrompe das fitas um animal estático que cai vagarosamente. A música abranda na sua metade mas rapidamente adquire novo balanço. Descobrimos afinal um corpo saído da lava composto de papel e fumo. O mesmo fumo verde sai da boca de Jónsi e durante um longo momento assistimos ao seu perfil, depois os outros membros da banda aparecem igualmente contaminados. O fumo invadiu mais corpos, inundou o espaço e persegue os seres que se afastam. A lua sobe e é tempo de transformação porque com este álbum algo nos Sigur Rós mudou mas eles haviam avisado que assim iria ser. O trabalho de Andrew Huang é bem diferente dos vídeos das sessões experimentais (que estiveram a concurso) no anterior "Valtari" e, naturalmente, terá tido outro budjet. Depois desta pequena apresentação resta-nos esperar pelos próximos trabalhos do artista porque a música também se sente com os olhos.