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terça-feira, 12 de maio de 2020

Shine on (You Crazy Diamond)


Shine on you crazy diamond. De Deus ficou este segredo. Do lado verdadeiro. Se eu fosse até lá durante o dia. Escreveria no lustro do contra sol. Assim como hoje, amanhã. E o que virá depois? Como algumas das palavras, as nuvens deslizam. Como boas testemunhas. Na meditação planetária. Nada a temer, portanto. E do infinito podemos esperar tudo. À nossa volta a música espande-se. Aquilo são ferrinhos e instrumentos de brincar mas há um órgão afinado que lês, em letras brilhantes. Um diamante louco e mais nada como antes. 

terça-feira, 23 de julho de 2013

U t t e r

Foi em 2006 que um grupo de amigos bracarenses se juntou. Influenciados pelos Sigúr Rós, U2, Radiohead, entre outros, chamaram ao seu projecto Utter, termo que traduzido significa “completo, absoluto, inteiro, infinito” porque aspiravam ao canónico, ao elevado e ao total. As letras são em Inglês e é nesta língua que definem a música que fazem: “Our music is always inspired by the universe, by the places where we’ve been (...) by listening to our music, we want people to be carried away to an imaginary place where everything's controlled through the natural equilibrium of the universe”.

via Facebook página oficial dos Utter

Foram finalistas do Festival Termómetro em 2011, e, nesse mesmo ano, editam o álbum “Empty Space”, cujo nome porventura poderia ter surgido em género singular da canção de título quase semelhante (ou não estivesse no plural) do álbum “The Wall” de 1979 dos Pink Floyd. E apesar do título, com os Utter nenhum espaço é deixado vazio.

November 1st abre as cortinas do álbum para uma paisagem atmosférica e instrumental. Entramos no espírito. Segue-se The Same Thing, os instrumentos são complementados com uma letra que (não encontrei disponível e) me parece ser esta:

Who Am I to teach you
If you keep me warm
But who am I to tell you
We are losing time
But who am I, and who am I, to rest you
We will be just fine
There ain’t no one to save you
We must go

But who are them to change you
We can always run away
And you just have to trust me
It won't be better if you stay
But who am I, and who am I, to rest you
We will be just fine
Would you trust me back? It's your time to go 
Would you trust me back? It's your time to go 
It’s time to go
If you leave me out here I'll be cool

Do you see?
Do you see?
If you open your eyes I’ll be there.

A estética musical dos Utter é um agregado de coerência electrónica onde a guitarra estende caminhos que a voz de João Pedro Botelho percorre. Não há obstáculos. Nada parece estar a mais. Nesta faixa, por momentos quase sem instrumentos - não fora uma mão dedilhar as cordas da guitarra -, o tom vocal eleva-se mas, a harmonia nunca é descontinuada interpelando-se, logo a seguir, a primeira corrente musical. A versão acústica ilustra a competência da banda:


Into the Light carrega algumas influências dos Sigur Rós. Old Guitar é uma promessa de liberdade, uma projecção de futuro dedilhada nas cordas da guitarra. The Walking Dead é talvez a faixa mais pop, o videoclip oficial foi gravado na Crácia (em Zagreb) e entregue de presente aos Utter. Volta a sensação de experimentalismo em Empty Space. You Draw A Line Between contou com a colaboração dos Noiserv. Em So Beautiful, fala-se de sonho. O som é expansivo. A letra inspiradora. Podemos deitar-nos num campo e olhar o céu transportando-nos dali. Primeiro através do teclado, como um colchão confortável. Depois o movimento acontece. O coração bate depressa. Apetece deixar-nos ir. Intuimos uma paisagem geométrica que nos embala e vagueamos deitados ao sabor da vibração das cordas friccionadas. O que ouvimos condiz com este vídeo (não oficial) que foi editado por um fã e que os Utter já divulgaram na sua página.


Aguarda-se novo disco para o início de 2014 mas, desde o Verão passado, João Botelho e o guitarrista Galiano dividem-se entre este projecto e o Colibri que, no último ano, os tem mantido ocupados. Resta saber qual dos projectos voará mais alto, se o beija-flor a cantar em português, ou, se este que é inteiro, completo e totalmente (utter) em inglês, ainda que o principal e comum aos dois seja universal: afinal, tudo isto é música. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

The Power of The Scream

Foi Edvard Munch que me levou a Oslo porque cresci curiosa com O Grito


Não era a ilustração da angústia que eu queria ver. Nunca foi. Era aquela produção que prevalece no tempo, cores irrepetíveis e verbos que vão muito além da tinta: um olhar frontal que não é humano e não é inumano, é O Grito. Os pintores comunicam através das obras, muito mais ao vivo do que nas imagens dos livros ou das que abundam no ciberespaço. E, na verdade, eu quis ouvir o quadro. A tela há 120 anos podia pretender ivocar morte como muitos defendem, mas foi Sebastian Cosor quem deu vida ao quadro, retirando O Grito da perpétua imobilidade malfadada por Munch. Na animação, o momento chega a ser cómico (e mais ainda na versão de inverno):



A música The Great Gig In The Sky dos Pink Floyd foi soberbamente escolhida para acompanhar o vídeo. O diálogo, parte integrante do tema, é sobre morte e respectiva aceitação: 

"And I am not frightened of dying, any time will do, 
I don't mind. Why should I be frightened of dying?
There's no reason for it, you've gotta go sometime."
"I never said I was frightened of dying."

Na versão original é Clare Torry quem causa arrepios e tudo isso sem dizer uma única palavra porque é também esse o poder que o grito contém. Quando os Pink Floyd, na pessoa de Alan Parsons, convidaram esta mulher para ensaiar a música, ela não sabia o que fazer, pediram-lhe que improvizasse e ela começou por evocar alguns “Oh yeah baby” rapidamente recusados por  Richard Wright. Depois de se familiarizar com a versão instrumental da composição, teve a ideia de utilizar a sua voz como se se tratasse de mais um instrumento e o resultado foi estonteante. Torry chegou a ter algumas participações ao vivo tendo sido a primeira a 4 de Novembro de 1973 num concerto de beneficiência para Robert Wyatt (baterista dos Soft Machine) no Rainbow Theater (Londres), e, posteriormente, outras como esta, em 1987, na Wembley Arena (Middlesex, Inglaterra):

Se não houvesse os vocais femininos a compor esta canção o resultado seria uma fórmula incompleta, cuja versão despojada de voz nunca poderiamos comparar:


Em 2004, Torry processou os Pink Floyd e ganhou o caso, adquirindo direitos na autoria da letra. Mas The Great Gig In The Sky continuou a ser tocado ao vivo com resultados espantosos, como as covers de Bianca Antoinette entre muitas interpretações de diferentes cantoras. Mas vale a pena (re)abrir o palco do Royal Albert Hall (Londres), para (re)ver Ola Bieńkowska usar os seus vocais:



No entanto, há mais por vir. Damian Darlington criou o Brit Floyd - The World´s Greatest Pink Floyd Show  para comemorar o lançamento do best of da mítica banda britânica, intitulado "A Foot In The Door", espectáculo esse que passará também por Lisboa e Porto nos dias 13 e 14 de Dezembro, respectivamente. The Great Gig In The Sky faz parte do alinhamento. 

Existem livros/guias que recomendam um determinado número de locais para visitarmos antes de morrer. Cada um de nós terá os seus lugares de eleição. Eu penso acrescentar à minha lista um destes recintos, em dia de concerto, repleto de gente, onde acredito poder realmente ouvir O Grito porque, afinal, já fui mais longe.