Uma música de Cuba do ano 1970. Não sei o porquê deste ano, provavelmente a celebração de algo para um dos Combo. Um aniversário, não se pode saber. Depois, a mesma canção com os dois do costume, mais a Royal Orquestra das Caveiras e ainda os outros instrumentos. Só para ouvirmos as diferenças das estrambólicas melodias que tocaram, daquela vez, no São Luís, com um conjunto de palmas no fim.
Ouço Dead Combo as guitarras tocam e há uma voz, embalando, para começar em jeito de lullaby, a abraçar a gente. E eu deixada em terra firme com o mar em frente vejo a passagem dos corpos náufragos. E ao escrever este texto-poema
percebo que todos os meus textos são poemas e não há parágrafos nos meus textos-canção. Ouço esta música como uma nova condição, não escrevo, sinto, porque as pinturas na água são como corridas de corpos loucos como ficção de cinema. Da janela de casa vai o ruído do mundo a passar, e, na interpretação, há sempre uma pena de ave a cair na minha mão. E ao escrever este texto-poema percebo que todos os meus textos são poemas e não há senão a verdade nos meus textos-canção.
Há coisas que não têm maldade nenhuma. Já falei de o facto de se dizer «coisas» não trazer maldade nenhuma e outras há. Muitas mais. Tantas iguais inocências. O mundo é em tudo um tanto. Por exemplo, vou a caminhar descalça na praia e o mundo são inúmeros grãos. Ou, um búzio encostado ao meu ouvido, olho em frente e o mundo todo é o mar. O banquinho de madeira, vazio, e não é possível saber quantas pessoas já ali se sentaram. O mundo é todo esse passado de tempo e de gente. Mas já é tarde. Arrumo as minhas coisas. Deixo quase tudo para trás. Ouço o apito do comboio e dali a minutos sei que o mundo será uma sucessão de paisagens. Rápidas, muito rápidas. Tenho a mochila cheia de memórias. Cada peça uma história, com uma textura e um cheiro. Levo roupa para o frio, porque nunca se sabe. Ora faz calor, ora a noite vem ferozmente apertar-me os ossos, fazendo-me curvar. O mundo um tanto de poderes fortes. E a seguir vou mais longe. Aperto o cinto, vai daí aquele esforço inclinado no momento de levantar e o mundo é um tecto visto de cima com copas, telhados, uma geometria de caminhos, e até o mar de repente em silêncio: só uma página azul. Distante, muito distante. E nisto descalço-me e sinto areia entre os dedos dos pés. Apesar dos banhos que tomei. O mundo preso a nós. E agora vou estar aqui até aterrar. Tenho é vontade de comer qualquer coisa fresca. Vontade de subir a uma árvore. De ser criança e poder fazer o que nunca fiz. Vontade de ser ainda mais feliz. Como putos a roubar maçãs.