Mostrar mensagens com a etiqueta Erik Satie. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Erik Satie. Mostrar todas as mensagens

sábado, 19 de outubro de 2013

Time Flies (vs. Kinetic Sculptures)

A propósito dos últimos posts relacionados com a Holanda e, lembrando-me da maravilhosa obra de Theo Jansen (também ele natural de Scheveningen, Haia, onde fotografei o arco-íris e a face esculpida de Igor Mitoraj), trago agora as esculturas cinéticas tridimensionais de Anthony Howe que merecem a máxima atenção. 



Por exemplo, esta face cinética atravessada pelo vento parece ter sido esculpida em simbiose com a natureza, como se os cem pequenos painéis de metal, movidos independentemente, lhe impregnassem vida, através das expressões que, conjuntamente, se conseguem visualizar. Esta semana o colectivo The Creators Project deu visibilidade a outras estruturas de Howe. 


No anterior vídeo são prestados - por este artista - alguns esclarecimentos relacionados com a sua inspiração para a realização do trabalho hipnótico. Tendo iniciado o seu ofício na pintura, Howe revelara-se "entediado com tudo o que estava estático no mundo visual, que queria ver a fluir". Pelo que decidiu desenvolver os seus projectos em 3D, através de programas de animação, dando uso ao material de que dispunha por meio de maquinaria integrada de corte em metal curvado. Como resultado, criou as esculturas cinéticas eólicas. E há mais peças a seguir, ao som de Erik Satie:



Agora, depois de décadas de trabalho, Howe revela que tem planos para criar a maior escultura cinética em todo o mundo (com cerca de 25 metros de altura) mas até lá a competição intensifica-se e a tecnologia caminha a passos largos porque a luz e a cinética já andam de mãos dadas a puxar por um futuro que se espreita cada vez mais próximo. Os inventores são os WHITEvoid e o vídeo Kinetic Lights DMX é uma amostra do que já não se pode perder. 




E embora o horizonte tenha muito mais artifício, a luz vem de trás: afinal, tudo começou quando friccionamos as duas pedrinhas... mas o tempo voa.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Erik Satie e a Liberdade

Também há certas gaivotas que vivem em todos nós.




Em vez de Be de Neil Diamond, as Gymnopédies de Erik Satie podiam pertencer à banda sonora da estória de Fernão Capelo Gaivota. Aqui esquecemo-nos de pensar no grasnar agudo que produzem em terra, exactamente o mesmo ruído que ouvimos na simples presença da palavra “gaivota”. A narrativa é acerca de outra espécie diferente: menos previsível, dotada de coragem mas frágil. E, sem demoras, vai-se dirigindo um foco de luz a essa ave em particular. O piano rasga o silêncio e serve de suporte. As sensações são muitas. Entramos na estória através do invisível braço gigante que parece um bico forte de pássaro, misturamos a textura da pele, das penas e até das estações do ano, no entanto, talvez seja Primavera no início da obra de Richard Bach porque “Era de manhã e o novo Sol cintilava nas rugas de um mar calmo.” Apresentava-se uma ave irrequieta que não se conformava com a sorte das outras. E apetece logo ir espreitar-lhe de muito perto as pupilazinhas pretas e tentar ver para dentro, mas o piano já tinha começado a ouvir-se.  


Parte I : Gymnopédie Nº 1 
Esta composição vaticina o gnosticismo preserverante de um espírito desalinhado. Há nuances de melancolia porque tudo o que é mesmo bonito raspa sempre o coração. Podia ser uma manhã qualquer de um dia qualquer mas Fernão Capelo não era uma gaivota vulgar, por isso, o dia é exactamente aquele dia que lhe pertence e que tem de ser contado. “Ele” queria aprender coisas que as outras aves não desejavam saber. Interessava-se por voar mais alto, a maior velocidade e, outras vezes, mais devagar somente pelo gosto da ventura e, por isso, é banido do bando. A música de Satie que eu escolheria para encostar a esta narrativa espelha aquela gaivota destemida em acrobacias que se torna solitária. Tenta subir e voar, não consegue e volta a tentar. O compasso musical é impestuoso como a escalada da ave aos céus. O estado da ave é claramente invulgar. Quer ir mais além. Há nuvens. Sente-se o vento. Mas a chuva nunca vem. (A chuva dos livros traz sempre coisas tristes e esta estória é de esperança e alegria.) O tempo vai passando e os pequenos olhos não encontram presenças humanas. Em todo o caso, se calhar, lá em baixo (onde deve haver o mar) passa uma traineira com gente mas, provavelmente, não há ninguém. De repente a sorte muda e Fernão Capelo encontra um companheiro que o leva a ascender a outro lugar onde se sente compreendido.

Parte II : Gymnopédie Nº 2 
“Então o paraíso é isto” pensou. Agora todas as gaivotas estão em comunhão com a nossa. O prazer de voar é partilhado. O divino parece andar a poucos metros daquelas altitudes. São felizes por estar livres, iguais a si mesmas. Quebrando os próprios limites num lugar novo sem espaço e sem tempo. Porém, o coração continua fechado. "Fernão, continua a trabalhar no amor", dizia-lhe o mestre tentando fazê-lo perceber que a liberdade só existe no mesmo binómio que a compaixão. O seu sucesso seria tornar-se ele próprio professor e para isso tem de retornar ao seu antigo bando e espalhar esta sabedoria fruto da sua experiência. 

Parte III : Gymnopédie Nº 3 
Foi esse o novo e grande ensinamento que o fez observador do sítio original. “Fernão voou em círculo, devagar...“ e encontrou vários pupílos interessados na arte de voar pelo prazer de voar. Finalmente, só a capacidade de perdoar que é sinónima de libertação das regras o faz verdadeiramente livre. O caminho para a perfeição são os pensamentos que o deixam repousar suspenso no ar. E a liberdade é quando só o coração comanda. 

Erik Satie continuou a compor e as Gnossiennes vieram tirar a liberdade a muitas gaivotas que, como eu, tiveram de parar de voar para ouvir. 


Ainda hoje, quando muito, posso sentar-me na tábua que as cordas seguram da árvore, fechar os olhos e tirar os pés do chão porque sei que alguém me vai empurrar a seguir. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

C o c o R o s i e

Foi há uma década que as norte-americanas irmãs Casady, se reencontraram em Paris e decidiram formar as CocoRosie. Inspiradoras enquanto fontes de criação, adoptaram o experimentalismo com elementos raros e é através da simplicidade que reconhecemos as escolhas de alguns dos objectos que produzem som: campainhas de bicicleta; gravadores; apitos; e até, muitas vezes, o som de animais à distância do botão de aparelhos musicais infantis. É um trabalho sério que parece derivar das suas brincadeiras. Num estilo freak folk e electrónico, estas irmãs não pretendem ser nada além delas próprias, o que as faz muito especiais.  
Foto de CocoRosie

Sierra (Rosie) demonstrou desde logo grande habilidade no uso de harpa, guitarra e piano sendo o seu maior trunfo a colocação da voz, depois de anos de estudo de ópera no conservatório parisiense. Bianca (Coco), mais nova três anos, munida de vocais infantis e formação para escrever letras. E, paralelamente, ambas utilizam os tais objectos estranhos – muitas vezes brinquedos - numa sonoridade conjunta de contrastes e invulgaridade. Somos apanhados por uma atmosfera surrealista de coisas várias que à primeira vista poderia pensar-se não combinarem. 

Ao contrário de muitas, esta é o género de banda que deve ver-se ao vivo. Good Friday pertence ao álbum de estreia de 2004, “La Maison de Mon Rêve” e é uma pequena amostra disso. Terrible Angels introduziu-as no campo musical através de uma letra simples, uma melodia pouco veloz, duas vozes bem acertadas e aqueles sons estranhos – podiamos tentar adivinhar que elementos eram aqueles mas, o sortido de sons inobserváveis das CocoRosie é o código genético do seu trabalho. Em Candy Land éramos embalados por uma harpa, o canto lírico de Rosie crescia e as brincadeiras eram evidentes: a canção é tão suave que somos transportados para um quarto de meninas onde se pressente um menino (Bianca, a irmã maria-rapaz) que pretende chamar à atenção através de uma espécie de pista automóvel  que se ouve atrás. Ou então, seriam as engrenagens mecânicas de uma fábrica de doces, a emitir aqueles sons. Não percebemos bem. É o jogo da adivinha desde que cheguemos a acordo na resposta final porque a fórmula é secreta. Alguma inocência de principiante poderia antecipar uma revolução de estilo para os álbuns que se seguiriam.

Em “Noah’s Ark” no ano seguinte, somos presenteados com a presença de Antony Hegarty na faixa Beautiful Boyz


Coco faz lembrar Björk na similar falta de esforço para se debruçar no seu timbre infantil. Ao longo do álbum encontramos um pouco de tudo: há um gato a miar; um acordeão ligeiramente acordado; animais a comer; um relógio que dá horas; um telefone a tocar; xilofones; um cavalo a relinchar e parece que estamos dentro de uma quinta. Podia ser tudo isto mas falta mencionar Sierra, pois mantém-se o monstro lírico, que transforma canções de embalar em verdadeiras epifanias. Quando ouvimos CocoRosie cada um retira o melhor para si. Em Tekno Love Song, parece-me que quem recita a letra da canção é Philip Seymour Hoffman vestido de Capote (o mesmo acontece dois anos depois durante os cinquenta segundos de Girl and the Geese) e as primeiras notas do tema confundem-se com o prelúdio da segunda parte de Pompidou dos Portico Quartet. Depois Coco sobrepõe-se e o resultado é irresistível  Em Brazilian Song há novas especiarias trazidas por Devendra Banhart, e é como se ao longe um grupo de índios convidasse o Sol a mudar a sua cor mantendo-se as texturas bizarras em consonância com o restante trabalho. Em Oh Sailor, há uma ânsia misteriosa de sobrevivência e o xilofone prevalece quando a voz de Rosie inunda aquele território só delas, impossível de confundir.

Com “The Adventures Of Ghosthorse And Stillborn” em 2007, chegamos ao Japan


A vida torna-se uma montanha russa e, mesmo quando chegamos ao ponto mais alto, Rosie impõe-se com os seus vocais numa espécie de evocação religiosa. A sofisticação da música contrapõe-se com os guizinhos que agita nas mãos, pulando depois no palco e cantando de forma infantil. É o puro recreio. 


Em Animals trazem borboletas, animais e ruídos de alvorada. Bianca destila um rap psicadélico saído de uma floresta mágica que é uma experiência que apetece ouvir mais. Nas gravações de concerto podemos encontrar brinquedos de bebé e outros instrumentos levados pelas CocoRosie à descoberta das suas algibeiras quiméricas. 



A letra deste tema expõe a vulnerabilidade de Bianca numa honesta declaração de solidão durante os tempos passados em comunhão com a Natureza, confessando o seu espírito frágil, incompreendido e alinhado com os animais.  A música não chega a ser triste porque a letra acrescenta-se emocional, porém, tremendamente verdadeira como uma memória arrumada dentro do coração. Raphael é o som extraído de uma imagem. Assim parece mas, desta vez, o relato de Bianca sugere uma experiência adolescente como uma má memória. Miracle descortina a sátira das manas relativamente a um casal poder viver feliz para sempre e é neste tema que Bianca parece atracar-se a Björk em The Anchor Song.


Em 2010, sai o álbum “Grey Oceans”, Lemonade parece ensombrar CocoRosie com os vocais eternamente infantis de Bianca e o piano dos Evanescence. Em The Moon Asked The Crow podia ser Erik Satie ao piano. Em R.I.P. Burn Face mais fácil seria recategorizá-las num género de música do mundo. 


Mas as manas estão finalmente de volta com “Tales of a Grass Widow”. O quinto álbum de longa duração. Há o luto da viuvez na indumentária mas a música continua orgânica e não traz surpresas. Parece mais uma tigela retirada da poção que as irmãs confeccionam com ingredientes só delas que sabem manter imaculados: o teatro, as vozes em domínio, os elementos pictóricos da natureza. Gravediggress é a primeira prova que podemos experimentar:


Em Tearz for Animals a questão "do you have love for humankind?" faz-se ecoar, apontando  para a nossa reflexão conjunta. Este tema conta com a participação de Antony Hegarty, assim como Poison. Nem isso mudou. Apetece pensar que ainda não é tempo de crescer porque os amigos são os mesmos. Apetece ainda dizer que o universo atmosférico do imaginário Casady é um lugar seguro feito de bibes, de tranças, de brinquedos e de emoções, onde parece não haver mais gente a não ser as crianças.